Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes
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Grupo de Filosofia - Artigos
Desidério Murcho
Conferência de Filosofia na Escola Sec. Poeta António Aleixo : " O Sentido da Vida "
Carlos Café

Numa louvável iniciativa do seu Departamento das Ciências Sociais e Humanas, a Escola Secundária Poeta António Aleixo, de Portimão, acolheu no passado dia 21 uma conferência filosófica subordinada ao tema "O Sentido da Vida", proferida pelo Dr. Desidério Murcho, da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

De como a conferência se desenrolou darei conta de seguida, através de uma apreciação crítica que terá duas partes: a primeira centrar-se-á no seu conteúdo especificamente filosófico, enquanto que na segunda abordarei a forma como a conferência decorreu.

1. O conferencista começou por alertar para o facto da abordagem que iria seguir não ser a que, segundo uma visão "popular" e não especializada da filosofia, se associa à expressão "sentido da vida". Com efeito, para a maioria das pessoas indagar pelo sentido da vida é o mesmo que responder a isto: como fazer para ser feliz? O que daí decorre é conhecido de todos: trata-se de encontrar um conjunto de preceitos e práticas que nos ajudem a fazer da nossa vida uma vida mais agradável. É claro que, ao ser colocada desta forma, nunca a pergunta nos proporcionará resultados iguais para todos, já que esta procura da felicidade terá forçosamente de levar em linha de conta as características, desejos e circunstâncias próprias de cada pessoa. (Eu posso sentir-me feliz vivendo isolado na Serra de Monchique, por exemplo, enquanto outra pessoa tudo faz para triunfar no ambiente cosmopolita de Hollywood). Portanto, concluiu o conferencista, este modo de fazer a pergunta não é correcto de um ponto de vista filosófico (por muito úteis que as eventuais respostas se venham a revelar para a nossa vida). Para que o problema possa ser analisado com rigor, a pergunta terá, então, de ser esta: a vida humana tem objectivamente valor? A questão é, pois, a de saber se a vida dos seres humanos tem valor de um ponto de vista imparcial, ou se tem valor apenas para nós próprios.

Apoiando-se no filósofo australiano Peter Singer, o Dr. Desidério Murcho continuou a sua análise socorrendo-se do que designarei por "exemplo do psicopata feliz" (e que constituiu, do meu ponto de vista, um dos momentos altos da conferência). A situação é a seguinte: imaginemos que um psicopata decide assassinar brutalmente pessoas a esmo, obtendo com isso indescritível felicidade, sem que tal lhe provoque a mínima ponta de remorso. E é então que as perplexidades surgem: será que a vida do psicopata feliz tem valor? E se tem, tem o mesmo valor que a de um não psicopata? E em nome de quê podemos dizer quer uma coisa quer outra? Ou ainda: de que falamos quando falamos do valor da vida humana? Há algo que lhe corresponda objectivamente ou tudo isto não passa de um pseudoproblema?

Na sequência destas e de outras reflexões, o Dr. Desidério Murcho orientou o auditório numa rápida visita à história da Filosofia, com o objectivo de mostrar duas coisas: que o tema já foi tratado no passado e que esse tratamento deixa muito a desejar.

O primeiro exemplo analisado foi o Estoicismo, uma corrente filosófica nascida na Antiguidade grega. Segundo o conferencista, a filosofia estóica coloca mal a questão e, para além disso, responde mal à questão mal colocada. Para eles, o problema é o de saber como ser feliz, o que, como já vimos, é um problema de natureza psicológica cuja solução não pode deixar de ter uma validade meramente subjectiva. O modo como respondem é o seguinte: a felicidade obtém-se através da virtude moral e do conhecimento, ou seja, somos felizes se formos simultaneamente sábios e boas pessoas. Para um estóico, portanto, a ideia de um psicopata feliz não faz sentido, uma vez que aquele que mata não tem excelência moral. Este argumento é circular, porque aceita à partida o que afirma à chegada. Senão, imagine-se o seguinte diálogo: Será que um psicopata pode ser feliz? Não. Porquê? Porque um psicopata nunca pode ser feliz. Como é que sabes? Porque sei o que é a felicidade, e o psicopata não possui o que é necessário para a atingir. Ou seja, já sabias a resposta antes mesmo da pergunta ter sido feita; para quê perguntar, então?

A resposta dos filósofos cristãos a este problema tem em relação ao Estoicismo a vantagem de considerar a questão do valor objectivo da vida humana. Como é sabido, para um cristão todas as vidas humanas têm um valor em si mesmas, na medida em que são uma dádiva de Deus. Esta concepção levanta alguns problemas. Um exemplo: será legítimo defender o valor da vida de alguém que a tira a outros (como no caso do psicopata)? Além disso, a resposta cristã a este problema assenta numa crença não demonstrada - a existência de um Deus na perspectiva teísta -, o que a coloca numa situação muito difícil em termos de credibilidade filosófica.

Como se vê, as dificuldades mantêm-se. A questão é agora a de saber até que ponto será possível fundamentar o valor objectivo da vida humana segundo uma perspectiva secular e naturalista (sem recorrer ao sobrenatural), e sem cair no idealismo. Se tal não for possível, é o triunfo do Relativismo (o valor da vida humana seria apenas relativo), com os riscos que lhe estão inerentes. Será esse triunfo inevitável?

O Dr. Desidério Murcho acha que não. Na linha do filósofo americano Thomas Nagel, defende que existem boas razões para crer na possibilidade deste problema ser tratado com rigor e profissionalismo, confiando para isso nos progressos da ciência e na pujança da investigação filosófica contemporânea.

Será isso possível? Pessoalmente, fundamentar a vida humana como um valor em si é uma ideia que me agrada, por motivos óbvios, mas também é verdade que as dificuldades sentidas pelos filósofos ao longo de dois milénios e meio estão aí para nos lembrar que não se trata de uma tarefa fácil. Entretanto, a questão resiste e as perplexidades persistem, o que não deixa de ser inquietante. Vendo bem, e como afirma Thomas Nagel,"a vida pode não só não ter sentido, como também ser absurda"... (2)

2. Se do ponto de vista do seu conteúdo filosófico a conferência do Dr. Desidério Murcho se revelou inequivocamente conseguida, já o mesmo se não pode dizer do modo como ela decorreu, enquanto acontecimento formal de comunicação. Apresentarei de imediato os motivos que, do meu ponto de vista, contribuíram para que tal tivesse acontecido, acompanhados de algumas sugestões que julgo poderem vir a ser úteis na organização futura de eventos deste género.

2.1. O primeiro motivo tem a ver com a escolha do auditório. Sempre que uma intervenção pública se destina aos jovens (como neste caso), é prática habitual nas escolas os professores levarem as suas turmas, normalmente as que teriam aula nesse período. Este critério é vantajoso em dois aspectos, o organizativo e o pedagógico: no primeiro caso, porque simplifica extraordinariamente as tarefas burocráticas e logísticas indispensáveis à organização de uma conferência e, no segundo, porque não "parte" as turmas ao meio, evitando desequilíbrios nas aprendizagens, posteriormente difíceis de gerir na sala de aula.

Mas este critério também acarreta um risco evidente e que é o seguinte: como há sempre um número razoável de alunos pouco motivados para um esforço intelectual do género que naturalmente se exige numa conferência, daí decorrem inevitavelmente perturbações, alheamentos e distracções que penalizam, quer os outros alunos interessados, quer principalmente o conferencista. Os professores, que conhecem melhor do que ninguém o desconforto de falar para um auditório onde alguns estão desinteressados, não deveriam esquecer este aspecto quando levam os seus alunos às comunicações dos outros.

Deixo aqui duas sugestões. Primeira: a escolha dos alunos deve ser feita levando em linha de conta a motivação e a conduta demonstradas pelos mais interessados (não necessariamente os melhores alunos), independentemente das turmas a que pertençam. Segunda: a conferência deve ser antecipadamente preparada com os alunos, de preferência com base no plano de abordagem que irá ser seguido, no caso do conferencista o ter disponibilizado.

Antecipando um contra-argumento habitualmente esgrimido nas escolas, segundo o qual uma prática deste tipo seria elitista, gostaria de chamar a atenção para o facto de tal não constituir uma discriminação negativa, mas apenas e tão só o justo reconhecimento dos méritos dos alunos. Além do mais, esse critério é já aplicado nas escolas: não é em função do mérito que eles são seleccionados para as representarem no Corta-Mato ou, por exemplo, nas Olimpíadas de Matemática?

2.2. Muito mais fáceis de corrigir são as dificuldades organizativas que a conferência revelou. Talvez por inexperiência dos organizadores ou ingenuidade de alguns alunos, o Dr. Desidério Murcho viu-se, por vezes, na necessidade de interromper o seu raciocínio, nomeadamente quase no final da sua comunicação, quando se ouviu o toque de saída. Sugiro duas soluções. Primeira: tornar públicas, de maneira clara e inequívoca, as regras formais da conferência (não compete ao conferencista fazê-lo, nem isso lhe fica bem...); segunda solução: destacar uma funcionária para impedir as entradas extemporâneas enquanto ela decorre.

2.3. Embora em menor escala que os factores anteriores, creio que a estratégia de exposição seguida pelo conferencista também terá contribuído para que a conferência não tenha tido, em termos formais, o brilho que o seu conteúdo merecia. Vejamos porquê.

Habituado a dirigir-se a alunos e professores nas escolas secundárias, o Dr. Desidério Murcho orientou a exposição das suas ideias segundo o método da leitura comentada, intercalando habilmente a leitura do texto da conferência propriamente dita com comentários mais informais, mas sempre rigorosos e esclarecedores. Além disso, conseguiu alternar o rigor argumentativo com a relevância dos exemplos, abrindo parêntesis sempre que necessário (consoante se dirigia preferencialmente a alunos ou a professores), não se esquecendo de indicar as fontes que utilizava ou, inclusive, mostrar e caracterizar sumariamente os livros a que se referia (e que dispusera na mesa para permitir uma posterior consulta).

Ao ser orientada deste modo, a conferência ganhou decerto em diversidade e vivacidade, mas creio também que terá dado origem a alguma dispersão por parte dos alunos, a quem terão passado algo despercebidos, temo-o, a consistência e a subtileza argumentativa que caracteriza o discurso do Dr. Desidério Murcho.

De um ponto de vista essencialmente pedagógico, e uma vez que a divulgação da Filosofia junto dos jovens estudantes lhe é uma tarefa muito cara, daqui faço duas sugestões ao Dr. Desidério Murcho. A primeira é que recorra a um maior número de "paragens" no percurso argumentativo das suas exposições, para que os menos preparados não corram o risco de se "perder"; a segunda é que opere uma ligeira "rectificação" dos objectivos da conferência, adaptando-a melhor ao auditório a que se destina, tornando-a menos ambiciosa e mais eficaz.

E é tudo. Felicitam-se os organizadores, agradece-se ao conferencista... e fica-se à espera de mais.

Carlos Café (professor de Filosofia e escritor)

Artigo originalmente publicado no jornal Barlavento, em Abril de 2001


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Última actualização desta página em 26 de Maio de 2003
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