A filosofia da religião é o domínio da filosofia que estuda o fenómeno religioso.
As religiões são compostas por dois elementos principais:
As verdades religiosas, quanto à forma como as conhecemos, também podem ser de dois tipos:
As segundas são objecto da religião natural ou teologia natural e são as que interessam aos filósofos da religião. O seu objectivo é verificar até que ponto estão ou não racionalmente justificadas.
A teologia é o estudo sistemático do conjunto de crenças, tanto reveladas como de razão, de uma dada religião, com o objectivo de compreender como podem formar um todo coerente (mais ou menos o mesmo que apologética).
- a filosofia da religião não é apologética.
- a filosofia da religião não faz qualquer apelo à revelação.
A psicologia da religião é o estudo dos processos mentais e comportamentos associados com a religião. Estuda
- a conversão ou a experiência mística, com o objectivo de formular teorias que as expliquem.
- tenta explicar o que leva os homens a ter crenças religiosas.
A sociologia da religião poderá estudar as instituições e comunidades religiosas e compreender a sua distribuição e influência nos diferentes sectores da sociedade.
A fenomenologia da religião é a tentativa de descrever os fenómenos religiosos para revelar as crenças e atitudes dos crentes e de classificar as actividades, as crenças e as instituições religiosas. Inclui-se neste estudo a compreensão das categorias de sagrado e profano.
Teísmo - Deus é um ser pessoal e espiritual, sumamente sábio, bom e poderoso, que criou o mundo para o homem e que, graças à sua providência, protege o homem e intervém no mundo por intermédio de milagres e profecias.
Deísmo - idêntico ao teísmo, mas nega a providência divina e a sua intervenção no mundo. Deus é uma espécie de Grande Arquitecto ou Relojoeiro, que fez o mundo e o abandonou à sua sorte.
Um dos problemas tratados em filosofia da religião é o de saber se um ser com uma natureza correspondendo a estas definições existe.
O argumento do desígnio é, histórica e filosoficamente, a prova mais importante da existência de Deus.
- versão nomológica (da palavra grega nomos, que significa norma ou lei): tentativa de provar a existência de Deus a partir da ordem do mundo.
- versão teleológica (da palavra grega telos, que significa fim, propósito): tentativa de provar a existência de Deus a partir da existência de um propósito ou fim, seja no mundo como um todo seja numa classe de seres do mundo, como os organismos vivos.
Swinburne distingue as duas versões.
A apresentação clássica do argumento do desígnio é a de William Paley no seu livro Teologia Natural.
Premissa 1: O relógio tem as suas diversas partes organizadas e associadas com um propósito (produzir movimento, etc.).
Conclusão 1: Logo, o relógio tem de ter um criador, o artífice que o fez.
Premissa 2: Os objectos naturais, seja o universo no seu todo, sejam entidades dentro do universo como o sistema solar ou os órgãos que compõem os seres vivos, por maioria de razão, também revelam uma ordem e uma adequação dos meios aos fins, isto é, um desígnio.
Conclusão 2: Portanto, também os objectos naturais têm um criador.
Conclusão 3: Como o criador tem de ser proporcional à obra criada, esse criador é Deus.
O ponto central do argumento do desígnio é a relação de semelhança que estabelece entre os artefactos humanos e os objectos naturais: os objectos naturais, tal como os artefactos humanos, revelam desígnio. Assim, o argumento do desígnio é um argumento por analogia. Os argumentos por analogia são argumentos indutivos:
- se o argumento for bom, mostrará apenas que é provável que a conclusão seja verdadeira.
- a sua força depende da informação disponível e da relevância dessa informação para a conclusão que procura estabelecer.
Um argumento por analogia tem, normalmente, a seguinte forma:
A entidade E tem as propriedades a, b, c, e z.
A entidade N tem as propriedades a, b e c (Ou a entidade N é como a entidade A). Logo, a entidade N tem a propriedade z.
Se as propriedades a, b, c são relevantes para a existência de z, o argumento é forte. Se não são relevantes, não é forte.
Uma aplicação muito conhecida do argumento do desígnio é na investigação em Farmacologia.
A capacidade de o argumento do desígnio nos persuadir de que a conclusão é verdadeira depende essencialmente:
- do grau efectivo de semelhança entre as propriedades das entidades comparadas. Se essa semelhança é elevada, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é elevada; se essa semelhança é baixa, a probabilidade de a conclusão ser verdadeira é também baixa.
É a segunda premissa, a que afirma que os objectos naturas são como os artefactos, que tem sido objecto de maior discussão.
As principais críticas ao argumento do desígnio de Paley já tinham sido publicadas vinte e três anos antes de Teologia Natural, numa obra póstuma de Hume que Paley desconhecia, os Diálogos sobre a Religião Natural.
Um argumento por analogia é tanto mais forte quanto maior a semelhança entre os objectos comparados, sendo maximamente forte quando existe uma exacta semelhança entre esses objectos, que permita, a partir daquilo que sabemos acerca de uns, estabelecer algo acerca do outro ou dos outros com toda a certeza. Quando isso não acontece, a analogia é fraca e tanto mais fraca quanto menos semelhantes (ou mais dissemelhantes) forem os objectos comparados.
Os objectos naturais (ou o universo no seu todo) são muito diferentes dos artefactos humanos.
Portanto, não é de todo possível estabelecer a semelhança entre os artefactos humanos e os objectos naturais e, por consequência, não é possível provar a existência de desígnio e de um projectista cósmico.
É pela experiência que sabemos que os artefactos têm desígnio e um criador. Temos boas razões, quando vemos um artefacto, para pensar que tem desígnio e um criador porque nos habituámos a associar, pelo hábito ou costume, um ao outro. No caso do universo, esta vantagem não existe. O universo é único e não temos, portanto, experiência anterior de outros universos.
Assim, também não temos experiência de como surgiram e na qual nos possamos basear para, a partir da constatação da existência deste universo, podermos, por hábito ou costume, inferir a natureza da sua causa.
Mesmo que se admita que a ordem que os objectos naturais revelam, indicia a existência de desígnio, real ou aparente, não se segue daí que a causa desse desígnio seja idêntica aos seres humanos. Uma vez que, tanto quanto sabemos, um pensamento e uma razão semelhantes às humanas são apenas causas de um número muito pequeno de acontecimentos e há outras causas na natureza que também dão origem a objectos com uma ordem e um arranjo semelhantes aos causados pelos seres humanos, é perfeitamente possível que a ordem e o desígnio dos objectos naturais não tenha origem numa causa idêntica a nós.
Hume explora esta ideia em duas direcções diferentes.
A hipótese da geração e vegetação
A ordem e o desígnio dos objectos naturais, devido a assemelharem-se igualmente bem aos efeitos dos animais e das plantas, têm origem em causas desse tipo. Assim, o mundo seria o resultado da geração e da vegetação e não de um agente inteligente semelhante a nós.
A hipótese epicurista (com ligeiras alterações)
Num universo finito com um tempo infinito, tudo o que existe, incluindo os deuses, é produto do movimento da matéria devido a causas estritamente mecânicas. Portanto, o nosso universo é fruto desta causalidade mecânica e não tem por origem nenhum Deus.
Se admitirmos, por hipótese, que os objectos naturais são semelhantes aos artefactos humanos, resultarão da aplicação do princípio da proporcionalidade (efeitos semelhantes provam causas semelhantes) algumas consequências para a forma como a divindade pode ser concebida:
1) Não é possível afirmar que os atributos da divindade são infinitos, porque, como a causa deve ser proporcional aos efeitos e os efeitos não são infinitos, a causa também não é.
2) Não é possível dizer que a divindade, mesmo na sua capacidade finita, é perfeita ou supor que as suas obras não têm qualquer erro, engano ou incoerência.
Do princípio da proporcionalidade segue-se que Deus não é infinito nem perfeito. Deste facto, Hume tira algumas consequências devastadoras para a religião.
Conclusões incompatíveis com o teísmo
1) em vez de ser a obra de um único Deus, o mundo pode ser a obra de muitos deuses, todos mais finitos e imperfeitos do que a sua própria obra (analogia do navio).
2) se as divindades têm algumas características semelhantes às humanas, então é possível que também tenham outras, a saber, sexo, olhos, bocas, narizes, etc.
3) todas as hipóteses imagináveis para explicar o mundo, desde uma divindade infantil a um deus senil passando por uma divindade inferior e subalterna têm de ser admitidas.
O problema do mal
4) Por último, a semelhança do mundo com os artefactos e da causa do mundo com os seres humanos torna difícil, se não impossível, sustentar que a Divindade tem as características morais que o teísmo lhe atribui.
- os animais evoluem
- Malthus: a população humana cresce numa proporção geométrica enquanto os meios de subsistência crescem numa proporção aritmética
- Darwin aplica esta ideia a todos os seres vivos e fez dela o princípio da selecção natural: nascem mais seres vivos do que os que o meio ambiente pode sustentar, pelo que os dotados de variações que favoreçam a sobrevivência sobrevivem, os outros não. Com o tempo, este processo faz as espécies evoluírem e produz novas espécies
- a selecção natural explica a complexidade dos organismos vivos sem recorrer a um propósito ou ao desígnio e, portanto, sem uma causa inteligente que seja a origem deste desígnio (a teoria da selecção natural explica os organismos vivos por uma causalidade mecânica e não por uma causalidade pessoal).
Na segunda metade do séc. XX surgiram versões do argumento que procuram evitar as objecções de Hume e Darwin. Uma delas é a de Richard Swinburne; outra é a dos defensores modernos do desígnio inteligente.
A versão de Swinburne não se baseia na analogia com os artefactos e, por isso, não está sujeita às objecções a que está sujeita a versão de Paley.
Há duas espécies de ordem no universo 1) Ordem espacial (regularidades de co-presença) e 2) Ordem temporal (regularidades de sucessão, como as leis de Newton, em que os objectos se comportam de acordo com certas leis da natureza), que dão origem a dois tipos de argumento do desígnio, argumentos da ordem espacial e argumentos da ordem temporal.Darwin, ao mostrar como a complexidade biológica tem origem, tornou os argumentos da ordem espacial muito fracos. Mas a ordem temporal não está sujeita a esta dificuldade e é mais básica do que a ordem espacial, porque esta depende dela. O universo poderia não ter qualquer ordem. Mas tem. E, além disso, obedece e obedecerá sempre a leis. Isto é extraordinário e não pode ser explicado pela ciência, porque a ciência explica uma lei natural sempre por intermédio de outra lei natural. Portanto, a explicação da existência de ordem temporal tem de ser de outro tipo, uma explicação de tipo pessoal. A explicação de tipo pessoal que Swinburne tem em mente é Deus. Como Deus é um ser omnipotente, omnisciente, omnipresente, eterno, perfeitamente livre e bom, esta hipótese é a mais simples e, como as hipóteses mais simples são as mais prováveis, é também a mais provável.
O universo, com todas as suas características que exigem explicação, é menos provável do que a hipótese de Deus porque deixa sem resposta demasiadas questões cruciais.
Nas últimas dezenas de anos, o nosso conhecimento do mundo físico e biológico progrediu novamente imenso e voltou-se a falar no argumento do desígnio em associação com ideias como de princípio antrópico, ajustamento delicado e complexidade irredutível.
A investigação em astrofísica, cosmologia e biologia tem revelado a existência de um número significativo de constantes cósmicas, aparentemente arbitrárias (que não podem ser determinadas a partir das teorias e têm, pelo menos por agora, de ser determinadas empiricamente), perfeitamente ajustadas para a existência de um universo como o nosso. Uma ligeira diferença nos valores dessas constantes teria produzido um universo tão diferente do nosso que as galáxias, as estrelas, os planetas e a vida como conhecemos seria impossível. Muitos filósofos e cientistas pensam que estes ajustamentos delicados não podem ser mera coincidência. Isso levou ao argumento antrópico-teleológico. Este argumento baseia-se no princípio antrópico, que pode ter duas versões distintas: a fraca e a forte.
A versão fraca: nós estamos cá, porque o universo é de modo a permitir a existência de seres humanos.
A versão forte: nós estamos cá porque o universo foi feito de modo a permitir a existência de seres humanos.
Assim, a existência destas constantes é uma prova de desígnio e, por sua vez, a melhor explicação para este desígnio é um projectista cósmico.
O bioquímico Michael Behe no livro Darwin Black Box defende que há sistemas biológicos complexos irredutíveis, isto é, sistemas compostos de várias partes perfeitamente ajustadas, que deixariam de funcionar caso se removesse uma das partes, e aponta como exemplo as bactérias que, segundo ele, têm alguns componentes tão complexos e essenciais que se fossem ligeiramente alterados já não funcionariam. Estes sistemas, por serem básicos, não podem ser explicados através da selecção e são, por isso, uma prova da existência de desígnio.
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