"Não faço parte do número daqueles que pensa que o mais importante em filosofia são as questões. Fazemos perguntas para obtermos respostas, pelo que as respostas são o mais importante. O facto de andarmos milhares de anos às voltas com as perguntas não altera isto em nada."
Qual a importância que o problema da existência de Deus tem na discussão filosófica actual?
Essa é uma questão difícil porque nos convida imediatamente a estabelecer comparações com outros problemas filosóficos e a tentar determinar a sua importância relativamente a eles. Ora, postas as coisas nesses termos, parece difícil que não hajam outros problemas mais importantes, por exemplo, na metafísica, na filosofia do conhecimento ou na ética. Por outro lado, o problema da existência de Deus tem ramificações, mais ou menos visíveis e imediatas, para todos estes campos (é até um problema mais fecundo e interessante na metafísica do que na filosofia da religião), pelo que, entendido deste modo, é certamente um problema mais importante do que pode parecer à primeira vista. Por outro lado, como as provas da sua existência são todas antigas pode parecer que o seu estudo está, digamos, há muito encerrado e tudo o que se faz é repetir à exaustão os velhos argumentos e as velhas críticas. Não é verdade. Os argumentos, assim como as primeiras críticas, podem, na maior parte dos casos, ser antigos, mas esses argumentos foram ao longo dos tempos reformulados para fazer face às críticas, o que, por sua vez, suscitou a ocorrência de novas críticas, numa dialéctica que se estende à actualidade. Na verdade, muitos dos principais argumentos a favor da existência de Deus têm formulações e críticas recentes e a prova da importância actual destes argumentos está na atenção que têm merecido de muitos cientistas.
Como reagem habitualmente os seus alunos a este problema? Há algum episódio particularmente curioso que tenha ocorrido nas suas aulas a propósito deste tema?
Suponho que, de um modo geral, da mesma maneira que os alunos reagem normalmente a todos os problemas filosóficos e a todos, ou a quase todos, os saberes substanciais que as escolas ensinam, isto é, com desinteresse ou um interesse muito limitado. Há, no entanto, excepções. Alguns alunos, e não necessariamente aqueles que têm uma maior disposição religiosa, revelam interesse pelo problema e pelas suas possíveis soluções e querem compreender melhor e saber mais. Mas, como digo, estes casos são excepções. Os conteúdos estudados na disciplina de filosofia são, em geral, muito abstractos e de interesse prático (no sentido de algo que permita uma profissão em que seja possível atingir um nível de vida desafogado em relativamente pouco tempo ou com valor lúdico) muito limitado, pelo que só uma minoria se interessa verdadeiramente por este tipo de questões. Mas, as outras áreas dos saberes não estão em melhor situação. Se os alunos lhes atribuem algum valor é apenas pelo seu interesse "prático", no sentido que acabei de referir. Como ensino filosofia da religião há alguns anos é possível que já tenha ocorrido algum episódio curioso, mas, felizmente (dado os meus constantes comentários anticlericais e o melindre que envolve estes temas por serem, frequentemente, embora erradamente, de âmbito pessoal), nenhum como aquele que aconteceu este ano lectivo a uma professora da minha escola, em que um encarregado de educação manifestou ao Director de Turma o seu desagrado pelo facto de na disciplina de Filosofia se ensinarem pontos de vista religiosos contrários aos seus. Isto resulta, obviamente, de uma incompreensão do que é a filosofia e, em particular, a filosofia da religião e de uma opção por uma fé cega e absolutamente intocável. Apesar de, como disse, o meu anticlericalismo vir frequentemente à superfície, tenho o cuidado de dizer aos meus alunos que devem pensar por eles mesmos e se têm dúvidas continuar a investigar. É essencial chamar a atenção dos alunos para esta dimensão crítica da filosofia, caso contrário, estamos apenas, por muito que possamos sentir que isso nos massaja o ego, a substituir as suas crenças, porventura injustificadas, pelas nossas e nada há de mais contrário à verdadeira filosofia.
Que tipo de estratégias utiliza no tratamento deste problema?
As estratégias que utilizo sempre que possível para abordar qualquer problema filosófico. Infelizmente, devido à faixa etária em que os alunos estão e ao nível de conhecimentos que normalmente têm, na maioria das vezes não é possível aplicar plenamente este tipo de estratégia. Idealmente, começo pela apresentação do problema e, como em religião há, normalmente, pontos de vista divergentes, em seguida deixo-os discutir livremente o tema para suscitar o seu interesse. Depois disso, entro propriamente na filosofia da religião e apresento as provas e as objecções procurando suscitar a discussão crítica, que, apesar de tudo, não acontece tantas vezes quanto desejaria. Mas, se a pergunta é no sentido de saber se utilizo estratégias que passam pelo recurso a meios audiovisuais a resposta é não. Penso, continuo a pensar, que o melhor método para tratar os problemas filosóficos na sala de aulas é o socrático, isto é, o método da discussão crítica dos problemas e, por isso, é o que tento fazer. É certo que muitas vezes ? como já disse, demasiadas vezes ? o resultado obtido fica aquém das expectativas. Mas, não penso que a conclusão a tirar daí é que o método é inadequado. Em vez disso, tiro antes a conclusão de que o meu trabalho não foi suficientemente bom ou os alunos não tinham a informação de fundo ? a informação básica ? necessária ou, claro ambas as coisas e, nesse caso, procuro corrigir a minha abordagem da questão ou fornecer a informação necessária. É só nestas circunstâncias que os meios audiovisuais podem entrar na sala de aula e na forma de documentários de divulgação científica, para, como aconteceu este ano, fornecer informação básica sobre o universo. Mas não vejo qualquer utilidade em passar, por exemplo, o Matrix para introduzir o problema da relação entre os dados dos sentidos e os objectos físicos ou o problema corpo/mente e suportar hora e meia de violência, quando posso fazer o mesmo e, espero, melhor em menos tempo.
Porque se dedicou ao estudo deste tema?
Há uma série de motivos circunstanciais que me levaram a estudar nesta altura este tema. Mas, bem vistas as coisas, há outro problema? Não é este, de uma forma ou de outra, O problema? Julgo que toda a ciência e toda a filosofia são, em última instância, a tentativa de responder à questão de saber qual a causa do mundo. A ciência, como sabemos, procura, diligente e persistentemente, a resposta a esta questão e tem, nos últimos anos, construído modelos para explicar o surgimento deste universo e, se e quando tiver sucesso, prosseguirá eventualmente nesse caminho de busca da explicação última. Por outro lado, algumas pessoas julgaram e julgam que a causa do universo é de determinado tipo e construíram atalhos com os quais pensam ter provado a existência dessa causa. A filosofia da religião é, pelo menos em parte, o estudo crítico desses atalhos. Mas, quando digo que não há outro problema e que toda a filosofia e ciência são a tentativa de resolvê-lo, sei bem que há outros problemas. Mas, são em larga medida complementares e a sua solução permite completar o quadro sem constituir a sua parte essencial. O mistério dos mistérios é, claro, a origem disto tudo.
O problema da existência de Deus será alguma vez resolvido?
Não tenho ideia. Embora agora não veja como isso seja possível, gosto de pensar que sim. Em todo o caso, não vejo que sentido faça colocar questões a menos que se lhes pretenda responder. Não faço parte do número daqueles que pensa que o mais importante em filosofia são as questões. Fazemos perguntas para obtermos respostas, pelo que as respostas são o mais importante. O facto de andarmos milhares de anos às voltas com as perguntas não altera isto em nada.
Que pergunta faria a Deus, se o encontrasse?
A pergunta supõe que Deus existe, que poderia responder e eu compreender a Sua resposta. Nenhuma dessas coisas está garantida, pelo que pensar nisso me parece inútil.
Acha que Deus existe?
Não. Estou convencido de que um Deus como o advogado pela Igreja Católica e, de um modo geral, por todas as grandes religiões teístas do Ocidente, cristãs ou não, não existe. Isto é, não existe nenhum ser pessoal, puro espírito, criador do universo, sumamente bom, sumamente sábio, sumamente poderoso e que seja, também, uma providência, um deus que podemos influenciar por intermédio de súplicas e orações para que interceda a nosso favor. Não é que essa hipótese seja logicamente impossível, mas sim cada vez mais improvável para ser credível. Para que acreditemos que algo existe é preciso termos provas factuais ou documentais da sua existência, ou que a sua existência seja a única ou a melhor forma de explicar um dado conjunto de acontecimentos. Ora, por definição não é possível ter o primeiro tipo de provas e as provas documentais não são credíveis. Também não temos razões para pensar que a sua existência seja a única forma, ou mesmo a melhor, de explicar o universo e a nossa existência nele. Quero frisar este ponto porque é frequente recorrer-se à capacidade explicativa da hipótese de Deus para justificar a sua existência. Nunca percebi porquê. Se me disserem que alguém fez algo e não me disserem como nem porquê, continuo sem ter uma explicação do sucedido. Tenho uma explicação para os sete milhões de judeus mortos na Segunda Guerra Mundial se souber apenas que foi Hitler que os matou? Além disso, a história da ciência ocidental tem sido em boa parte a história da remissão de Deus para parte incerta. Cada acontecimento que é explicado por leis tem a contrapartida imediata de anular uma hipotética explicação divina - a explicação por um ser espiritual que origina o acontecimento e lhe atribui um desígnio - e de afastar assim cada vez mais Deus do mundo. Por isso, no sentido mais restrito do termo, no sentido de alguém que não acredita que este deus exista, sou ateu. No entanto, não sou ateu no sentido amplo do termo. Penso que, embora não seja logicamente necessário que exista uma causa para o mundo, é provável que exista. Não sabemos se existe e, caso exista, o que é, mas, penso que, se existir, como julgo, deve ser uma causa mecânica, embora, eventualmente de um tipo diferente do que conhecemos. É óbvio que, no limite, temos sempre que admitir que esta causa do mundo é a causa de si própria, mas passa-se o mesmo se admitirmos um outro tipo de causalidade e o mundo não parece reunir as condições para ser causa de si próprio. Há ainda um outro aspecto que gostaria de realçar relacionado com este ponto. É o aproveitamento que as diferentes igrejas fazem da hipótese divina para impor regras e normas de conduta, dominar e manter as pessoas na ignorância. A quantidade de sofrimento produzido dificilmente pode ser quantificado, mas é certamente considerável. Neste aspecto, as religiões pagãs eram bem melhores do que as religiões teístas actuais e a situação é tanto mais caricata quanto muitas destas regras não encontram justificação - muito pelo contrário - nos seus textos sagrados.
Porque criou um site de Filosofia? Quantos visitantes tem o site? E sabe que tipo de pessoas são?
Por vários motivos. O primeiro, sem que isto signifique que seja o mais importante, foi o de poder divulgar algumas das minhas opiniões filosóficas ou pedagógicas. O segundo, foi o de defender o pensamento crítico, a boa filosofia e a boa ciência, dos ataques generalizados da pseudo-filosofia e da pseudo-ciência, que estão a invadir as nossas escolas e universidades, e disponibilizar textos com qualidade didáctica e científica a professores e alunos. O exemplo da filosofia é porventura o mais flagrante. À velha prática de reduzir o seu ensino aos textos e ao comentário inspirado dos textos, que encontra correspondência em alguns dos manuais actualmente no mercado e que tornou comum ouvirmos dizer que em filosofia basta inventar, juntou-se uma concepção da filosofia que gira em torno de dois vectores: 1) não é possível caracterizar, e ainda menos definir a filosofia; 2) uma filosofia só é falsa se for contraditória. O primeiro vector, permite que qualquer conjunto de ideias tenha dignidade filosófica; e o segundo, reduz a filosofia ao estudo de sistemas filosóficos, quando muito à comparação de sistemas, à história da filosofia, mas nunca ao trabalho criativo e crítico da solução de problemas, que é o que ela deve ser e é nas universidades do mundo desenvolvido. Outro factor que contribui para o estado actual do ensino da filosofia é a ausência de programas a sério nas cadeiras do Ensino Superior (o que permite que, na prática, um professor leccione o que quer que seja sobre o que quer que seja) e os programas vagos e com erros no Ensino Secundário. Pelas portas assim escancaradas tem entrado de tudo um pouco e o facto de noutras áreas, sobretudo das ciências humanas, a situação ser idêntica ou pior não nos serve de consolo. Penso que devemos todos, na medida das nossas possibilidades, tentar mudar este estado de coisas e foi isso que me levou a fazer o site. Neste momento não tenho uma noção exacta de quantos são os visitantes do site. Quando o site estava alojado no Sapo, tinha acesso a estatísticas diárias e as visitas rondavam uma média de 200 por dia. Mas agora isso não é possível. No entanto, julgo que o número deve ser sensivelmente o mesmo. Os contactos com os visitantes não são muito frequentes. Dos poucos que tive, fico com a impressão de que a maior partes dos visitantes são professores e estudantes de filosofia maioritariamente portugueses e brasileiros.
D
|
|