1. Por que é que se licenciou em filosofia?
Quando tive de fazer a minha opção no 10.º ano, escolhi o agrupamento de ciências. Isso foi bom, porque me deu alguma cultura científica que se revelou muito útil. Mas no final do meu 11.º ano já tinha compreendido que há perguntas a que nenhuma ciência pode responder, por muito rigorosa e avançada que seja. De facto, ainda que passemos uma vida a estudar arduamente Física ou Biologia, não é com esses conhecimentos que poderemos responder às questões mais essenciais, como a de saber se a vida tem um sentido ou a de como justificar a crença de que existe um mundo exterior às nossas mentes. Foi nesse momento que decidi escolher um curso de Filosofia, ainda que os meus pais não ficassem inteiramente satisfeitos com a mudança!
2. De que forma pode a filosofia influenciar a vida das pessoas?
Há muitos problemas que não podem ser solucionados pela inspecção, ainda que atenta, da realidade. Talvez por isso sejam intemporais. Por exemplo, qual é a ciência que me dirá como hei-de viver e como devo agir perante os meus semelhantes? A filosofia proporciona-nos uma compreensão mais alargada do mundo e habitua-nos a pensar disciplinadamente sobre as questões essenciais que preocupam os homens intelectualmente vivos. Ao examinarmos atentamente as teorias e os argumentos dos filósofos, sentimo-nos compelidos a pensar sobre essas questões, mesmo que isso seja muito difícil. E descobrimos, muitas vezes, que a nossa vida está cheia de preconceitos e de acções impensadas. Por exemplo, quando lês um livro como o Libertação Animal, de Peter Singer, não podes deixar de pensar sobre os teus hábitos alimentares e sobre a maneira como te tens relacionado com as espécies não humanas. E questionas-te: "por que razão tenho sido especista, se já deixei de ser racista, sexista e xenófobo? Por que não reconheço aos animais o direito a não sofrerem? Só porque são irracionais? Mas não serão os deficientes mentais profundos e as crianças de tenra idade igualmente irracionais? No entanto, não lhes inflicto sofrimento. Isto é incoerente". E concluis que, a não ser que sejas egoísta ou deixa-andar, deves alterar a tua alimentação e banir os produtos estéticos fabricados à custa do sofrimento de animais. É nisto e noutras coisas que a filosofia pode influenciar a vida das pessoas.
3. Considera que a filosofia deve ser avaliada da mesma forma que qualquer outra disciplina?
Sim, se por "da mesma forma" entendes com o mesmo rigor, justiça e objectividade possíveis, que estamos mais inclinados a reconhecer na avaliação das disciplinas científicas do que na das disciplinas humanísticas como a Filosofia. Mas não há razão para defender que a avaliação em Filosofia é fatalmente subjectiva e arbitrária. Na verdade, as competências filosóficas dos estudantes podem ser tão rigorosamente avaliadas como as suas competências matemáticas. Em Filosofia há um imenso conjunto de problemas, teorias e argumentos tradicionais que os estudantes devem dominar, como quem domina o teorema de Pitágoras ou a fórmula resolvente das equações do 2.º grau; cada um deverá saber examinar cuidadosamente as teorias dos filósofos, indagando se serão verdadeiras e coerentes, comparando os vários argumentos a favor e contra, e investigando as consequências de cada uma delas; cada um deverá ouvir atentamente as posições dos outros e ter abertura de espírito para rever as suas próprias ideias. E, sobretudo, habituar-se a justificar tudo aquilo que defende com base em argumentos sólidos. Todas estas competências são avaliáveis de forma rigorosa, ainda que certas actividades e instrumentos de avaliação possam ser mais ou menos adequados para avaliar cada uma delas.
4. Como é que consegue motivar os alunos para a aprendizagem da filosofia?
Nem sempre o consigo, pois há alunos que resistem a pensar sobre o tipo de problemas de que a filosofia trata. Mas desde que um certo problema filosófico seja significativo para uma maioria de estudantes, isso possibilita aulas vivas e com debates importantes. Por isso, acredito que a melhor estratégia consiste em propor, na aula, a discussão de um problema claramente formulado, em vez de começar logo por ler textos difíceis de filósofos do passado. Depois, sou intransigente quanto à forma de trabalhar: não há debate com alunos que falem ao mesmo tempo, que não se oiçam, que não tenham paciência e que não estejam dispostos a rever as suas próprias ideias. Uma opinião não é filosoficamente boa só porque é a nossa opinião. O debate tem regras. Isto só custa nas primeiras semanas, mas depois começa a dar resultados: chegamos ao fim das aulas com conclusões e com uma ideia mais clara sobre os problemas que foram tratados - por exemplo, se é ou não legítimo interromper a vida humana.
5. Será que a filosofia pode causar conflitos na mente dos jovens? Afinal estudam-se várias teorias e elas contradizem-se.
Espero que sim! Pelo menos um conflito com os nossos próprios preconceitos. Nesse aspecto o "conflito" causado pelo estudo da filosofia é óptimo, porque pode desinstalar várias ideias feitas. O facto de as teorias dos filósofos por vezes se contradizerem deve constituir um estímulo para que as examinemos melhor. Se um filósofo diz "não há liberdade porque são as leis da natureza que governam as nossas acções" e outro filósofo diz "há liberdade, sim senhor", há uma coisa que sabemos logo à partida: que só um deles (ou talvez nenhum deles) tem razão. Porque o que estão a defender é inconsistente - não podem ter ambos razão simultaneamente. Qual deles diz a verdade? É isso que temos de investigar, examinando os seus argumentos e analisando as consequências de cada posição. Se não conseguirmos chegar a uma conclusão satisfatória, temos de continuar a investigar e a discutir. A não ser que prefiramos enterrar a cabeça no chão como a avestruz. Mas duvido que isso evite conflitos nas nossas mentes...
6. Considera que antigamente havia uma maior influência da filosofia no mundo da política do que actualmente?
Não. Talvez a imagem de uma Grécia antiga onde os filósofos se passeavam nas assembleias alimente esse preconceito. Mas a história está recheada de exemplos de maus políticos, tiranos e déspotas. Apesar de tudo, as democracias floresceram nos últimos séculos e há cada vez mais, entre os povos, uma consciência do que é o justo e o injusto, mesmo se o mundo está longe de ser uma "aldeia" justa. Talvez os bons políticos do passado fossem pessoas filosoficamente informadas, tal como os bons políticos de hoje. Acontece que por vezes temos a sensação de que há muitos políticos que não colheram quaisquer ensinamentos éticos, porque agem de forma injusta e apenas em benefício pessoal. Mas isso não é característico apenas do nosso tempo.
7. De que forma a filosofia influencia a política?
Proporcionando-lhe os fundamentos racionais. Idealmente, toda a política deveria estar alicerçada num pensamento filosófico-político e ético. Em termos práticos, isso não acon-tece, porque alguns políticos não parecem ter qualquer cultura filosófica. Por exemplo, há pessoas que pensam que a desobediência civil é apenas um caso de polícia - nunca investigaram filosoficamente se deveremos obedecer sempre às leis, ou se existem casos em que, por razões éticas, a desobediência às leis até seria justificada. Esta visão estreita do modo como a sociedade deve funcionar permite que, cada vez mais, apenas motivações materialistas e pragmáticas estejam na base das grandes decisões políticas.
8. Quais são os filósofos mais actuais que reflectiram sobre filosofia política?
Há dois filósofos que são inevitáveis quando se estuda filosofia política contemporânea: John Rawls e Robert Nozick. Infelizmente, temos pouca literatura filosófica contemporânea traduzida nesta área e os seus livros, particularmente os de Nozick, quase não são conhecidos em Portugal. Isto contrasta com alguma abundância de reflexões sociológicas sobre a política, mas a filosofia não é sociologia.
9. Quais as obras mais importantes no âmbito da filosofia política?
Entre os clássicos, A República e o Críton, de Platão; a Política, de Aristóteles; a Cidade de Deus, de Santo Agostinho; o Leviatã, de Hobbes; os Dois Tratados da Governação, de John Locke; O Contrato Social e o Discurso Sobre a Desigualdade, de Jean Jacques Rousseau; os escritos políticos de Kant; a Filosofia do Direito, de Hegel; uma ampla parte dos escritos de Marx e de Engels; o Da Liberdade, de John Stuart Mill; Uma Teoria da Justiça, de John Rawls; o Dois Conceitos de Liberdade, de Isaiah Berlin; e o Anarquia, Estado e Utopia, de Robert Nozick, entre outros.
Em relação às leituras introdutórias, destacam-se duas (infelizmente não há tradução portuguesa de nenhuma delas): o Political Philosophy: An Introduction, de Jonathan Wolff (Oxford University Press, 1996) e o Political Philosophy: A Beginner's Guide for Students and Politicians, de Adam Swift (Polity Press, 2001). Em português existem alguns capítulos de livros que são muito bons para os estudantes: "Política", em Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton (Gradiva, 1998); e "A Igualdade e as suas Implicações" e "Fins e Meios", em Ética Prática, de Peter Singer (Gradiva, 2000).
Estão ainda editados outros livros, de qualidade e interesse variável, em português: A Filosofia Política, de Anne Baudart (Instituto Piaget, 2000); A Revolução Federal: Filosofia Política e Debate Constitucional na Fundação dos E.U.A., de Viriato Soromenho-Marques (Edições Colibri, 2002); Epistomologia e Filosofia Política, de Lucien Goldmann (Presença, 1984); Filosofia Política, de Philippe Corcuff (Europa-América, 2003); História da Filosofia Política (5 volumes), de Alain Renaut (Instituto Piaget, 2000); Popper: Filosofia , Política e Método Científico, de Geoffrey Stokes (Temas e Debates, 2000).
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