«Quando se começa a ler a imensa bibliografia filosófica contemporânea repara-se que afinal a filosofia não morreu»
O título da conferência que tem preparada para a nossa escola é "Filósofos e Opiniões". O que têm de especial as opiniões dos filósofos?
Num certo sentido, nada têm de especial; como todas as opiniões de especialistas, sejam eles músicos ou físicos, são opiniões particularmente importantes, a que devemos dar atenção. Mas há dois aspectos em que o tema das opiniões é particularmente importante no ensino da filosofia.
O primeiro é que acontece com o bom ensino da filosofia o que não acontece com o ensino de outras disciplinas: o que se pede aos estudantes é que formem uma opinião. Este aspecto singular da disciplina apanha muitos professores de surpresa; não sabendo reagir a este aspecto, refugiam-se na história da filosofia ou no repetitorium das ideias dos filósofos - até porque não saberiam avaliar as opiniões dos estudantes, que têm tendência para pensar que, como todas as opiniões, são pessoais e insusceptíveis de ser avaliadas. Mas isto é uma confusão. A opinião que se pede a um estudante de filosofia é como a opinião que se pede quando vamos ao médico: é uma opinião, mas uma opinião informada e fundamentada. E no caso da filosofia o que se avalia é precisamente são precisamente esses dois aspectos. Assim, perguntamos ao estudante que opinião tem ele sobre a existência de Deus, por exemplo, ou sobre a teoria kantiana da moral. Mas o que avaliamos é o seguinte: 1) se essa opinião reflecte um conhecimento sólido dos aspectos mais importantes do que está em causa, conhecimento este que tem dois aspectos: um aspecto histórico (é necessário conhecer com rigor as ideias dos filósofos clássicos) e um aspecto filosófico (é necessário dominar os aspectos conceptuais do que está em causa). E 2) se o estudante consegue defender solidamente a sua ideia, com argumentos adequados, sem deixar de responder aos argumentos contrários estudados. Quando se tem esta visão clara do ensino da filosofia a nossa perplexidade desaparece. De facto, ao contrário do que acontece no ensino da física ou da história, em que seria bizarro pedir uma opinião a um estudante do secundário, ensinar a ter uma opinião sólida sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia é o núcleo desta disciplina.
O segundo aspecto é a ideia de incomensurabilidade que atacou as nossas escolas e universidades. Por falta de uma formação filosófica adequada, chega-se ao fim de uma licenciatura em filosofia com a noção errada de que "cada filósofo é uma ilha" - cada filósofo tem as ideias que tem, que são "coerentes em si", mas que é despiciendo levar a sério e discutir como se fossem ideias susceptíveis de ser realmente verdadeiras ou falsas, plausíveis ou implausíveis. Escusado será dizer, esta visão da filosofia, associada às correntes pós-modernistas da "Morte da Filosofia" é mesmo o fim da disciplina, que deixa de fazer qualquer sentido numa escola - se a filosofia "morreu" nada mais resta do que fazer a sua história. Mas quando se começa a ler a imensa bibliografia filosófica contemporânea repara-se que afinal a filosofia não morreu; e quando se lêem os muitos bons livros de introdução à filosofia que há por esse mundo fora, percebe-se que afinal é possível ensinar filosofia de cabeça levantada, fazendo da filosofia verdadeiramente o lugar crítico da razão, aprendendo a avaliar cuidadosamente as ideias dos grandes filósofos clássicos - tomando-as não como particularidades pessoais, incomensuráveis e intransmissíveis, mas como ideias oferecidas à humanidade para serem encaradas como tentativas sérias de responder a problemas humanos que nos preocupam.
Os filósofos têm opiniões diferentes entre si. Pensa que valem todas o mesmo ou há umas melhores do que outras?
Compete a cada um julgar. Do meu ponto de vista há filósofos particularmente pobres, cujas ideias são pouco sofisticadas, revelando muitas vezes uma grande ingenuidade. Mas, independentemente desta ideia polémica, é absurdo pensar que todas as opiniões dos filósofos valem o mesmo. Afinal, há músicos melhores do que outros, tal como matemáticos e historiadores. Por que razão só no caso dos filósofos seriam todos iguais?
A razão compreende-se quando se vê o estado a que chegou o ensino da filosofia no nosso país. Os licenciados não contactaram com os grandes filósofos clássicos de um ponto de vista filosófico; apenas leram vagamente alguns "textos" desadequados, sem terem a necessária preparação filosófica, e sem que lhes fosse permitido avaliar criticamente esses "textos". É como se alguém me desse "textos" clássicos de medicina para eu ler. Como nada sei de medicina, iria desenvolver tiques perfeitamente previsíveis: iria pensar que todos os "textos" estão a par, porque não tenho a formação médica para os avaliar e distinguir; se eu fizesse alguma distinção seria meramente pessoal e emocional, e baseada em aspectos literários laterais desse "textos" e não nas ideias que eles exprimem; e tudo o que eu poderia fazer para imitar a discussão das ideias desses "textos" seria uma vaga associação de ideias e jogos de palavras com base neles; os pontos fundamentais iriam escapar-me, precisamente porque não tenho formação em medicina. E iria então desenvolver a ideia da incomensurabilidade e de que é tudo igual a tudo. Parece-me claro que isto é um escândalo. Que seja o habitual nas nossas escolas apenas sublinha o quanto há a fazer para dignificar o ensino da filosofia entre nós.
Como podemos saber que a opinião de um filósofo é melhor do que a opinião de outro filósofo?
Pensando. Curiosamente, pensar, essa actividade central em filosofia, é a actividade menos praticada nas nossas escolas. Pensar é comparar, discutir, argumentar; levantar objecções e contra-exemplos, saber responder a dificuldades. Assim, o ensino de qualidade da filosofia prepara o estudante para comparar as ideias de Kant com as de Mill sobre a ética, por exemplo, e decidir por si qual é melhor. Para isso precisa de instrumentos; precisa de conhecimento histórico e conceptual; e precisa de saber discutir ideias, de estar aberto à discussão, de saber reagir a objecções. Quando abrimos o nosso ensino à discussão de ideias formamos cidadãos desdogmatizados, que sabem pensar por si, dispostos a mudar de ideias se forem incapazes de defender as ideias que têm, com capacidade para avaliar ideias alheias com imparcialidade, vendo os seus pontos fracos e os seus pontos fortes. Mas o que temos hoje é o inverso disto; as opiniões dos filósofos são sagradas, como se a filosofia fosse religião e os filósofos Papas infalíveis. É preciso sair desta menoridade cultural e ter a coragem de começar a ensinar nos nossos estudantes a discutir as ideias dos grandes filósofos clássicos, tanto antigos como contemporâneos.
Há quem considere que as opiniões dos filósofos já são todas antigas e que agora pouco há a acrescentar. Concorda?
Essa ideia só pode derivar de um profundo desconhecimento da filosofia contemporânea. Seria como dizer que a música morreu, ou a pintura, ou a matemática. Pelo contrário, nunca se fez tanta filosofia e com tanta qualidade como hoje. Tal como nunca se fez tanta música, pintura e matemática como hoje.
É evidente que as ideias dos filósofos contemporâneos devem muito aos filósofos do passado; tal como as ideias dos físicos devem muito às ideias dos físicos do passado. Se não nos apoiássemos no legado que os nossos antecessores nos deixaram teríamos de partir do zero a cada nova geração, e portanto não poderia haver progresso. Ora, é deste facto que surge um mal-entendido: uma pessoa sem formação adequada em filosofia lê um filósofo contemporâneo e fica com a ideia falsa de que afinal são as mesmas ideias do que as de Kant ou Platão ou Tomás de Aquino. Mas isto é só uma distorção, só porque os filósofos contemporâneos, pelo menos os filósofos tradicionais, discutem muitos dos mesmos problemas discutidos pelos filósofos clássicos.
Pensando nos alunos do secundário, estarão eles condenados a repetir as opiniões dos filósofos ou ainda há espaço para terem as suas próprias opiniões?
Não há falta de espaço. Mas falta formação adequada, por parte dos professores, para saberem dar esse espaço e fazer da disciplina aquilo que deve ser: o lugar crítico da razão, como costuma ser enganadoramente apregoado. Pela sua própria natureza, a filosofia morre se não se permitir o debate de ideias; se as opiniões dos estudantes forem silenciadas na disciplina de filosofia, e se a disciplina não cumprir o seu papel de ensinar a ter opiniões informadas e fundamentadas, onde se vai aprender tal coisa? Nos reality-shows da tonta televisão para o povo? Nos jornais? Mas onde aprenderam essas pessoas a discutir opiniões? E onde aprenderam elas a ter opiniões? Ironicamente, em países onde não há filosofia no ensino secundário os estudantes contactam mais com a disciplina do que em Portugal - porque nas outras disciplinas os professores não fogem à discussão dos aspectos filosóficos relevantes com os seus alunos. Mas isso só pode acontecer porque há departamentos de filosofia fortes, cujos professores são filósofos de renome internacional, que publicam livros todos os anos, quer tratados avançados quer livros introdutórios, o que eleva o nível geral da proficiência pública com respeito à discussão de ideias em qualquer área.
Há até uma razão pedagógica ou psicológica para encorajar as opiniões dos estudantes. Quando se pede a um estudante um mero relatório impessoal sobre a teoria kantiana da moral, por exemplo, ou a teoria cartesiana do cogito, estamos a dificultar-lhe o trabalho. Precisamente porque a cognição e a aprendizagem está profundamente ligada a aspectos emocionais, é muito mais fácil começar por perguntar ao estudante o que pensa ele de um determinado problema, que pode ser colocado em termos perfeitamente a-históricos. Ao ser pressionado para ter uma opinião, o estudante é obrigado a sair do domínio impessoal e frio do relatório escolar - tem de dar a sua opinião. E ao tentar fazer isso verifica que a sua opinião será tanto mais rica quanto mais informação ele tiver do que disseram os grandes filósofos sobre esse problema, e quanto mais souber fundamentar a sua opinião com argumentos sólidos. Assim, o estudante fica motivado para estudar filosofia; a sua motivação é ter melhores bases para ter uma opinião mais rica - em suma, estamos a estimular-lhe a curiosidade, que é o elemento sem o qual não pode haver vida escolar ou intelectual de qualidade. Não se pode fazer trabalho intelectual ou escolar de qualidade com o mesmo espírito com que se varre o chão ou se limpa o pó. É necessário ter uma genuína curiosidade ardente pelo que se está a estudar. E compete ao professor estimular essa curiosidade.
O que é que fazemos com as nossas opiniões filosóficas?
Partilhamo-las. Avaliamo-las criticamente. Comparamo-las com as opiniões dos grandes filósofos clássicos, de ontem e de hoje. Abrimos pontes de diálogo. Respondemos a objecções. Isto é o contrário do que nos ensinaram a fazer: a enclausurarmo-nos na ideia tonta de que as nossas opiniões filosóficas são pessoais e incomensuráveis, como gostos que não se discutem. Mas os gostos e as opiniões são a única coisa que se discute; com certeza não vale a pena discutir factos. A falácia é pensar que ou é tudo completamente objectivo e insusceptível de discussão, ou então é tudo completamente subjectivo e como tal também insusceptível de discussão. O mundo é mais complexo do que isto. A verdade está no meio. Não é tudo objectivo nem é tudo subjectivo; a maior parte das nossas opiniões são uma mistura das duas coisas. E só nos aproximamos da objectividade e de uma subjectividade mais rica e humana através da discussão desempenada com os outros.
Costuma dar conferências em escolas secundárias. Acha que os adolescentes aderem à filosofia?
Sem dúvida que sim. Pelo menos, a uma filosofia socrática, que envolva o estudante, que o interpele, que lhe dê espaço para dizer o que pensa. E isto não é surpreendente. As perguntas filosóficas surgem a muitos estudantes por volta dos 14 anos. Será que a vida tem sentido? Qual é o mal de fazer algo eticamente mau? Como podemos ter a certeza de que sabemos realmente alguma coisa? Não será tudo isto uma ilusão? Afinal, o que é o espírito ou a mente, esta coisa pensante que me sussurra ao ouvido? Estas são perguntas filosóficas que nos surgem naturalmente. Não é por isso de espantar que os adolescentes adiram bem.
Evidentemente, não é o paraíso. Muitos estudantes estão estupidificados, tanto por uma escola cinzenta e formalista, como por uma sociedade de novos-ricos ignorantes, que vivem para o carro novo e o telemóvel. Mas a escola é tanto mais importante precisamente por isso - pelo menos, a escola de qualidade. Porque é aí que o estudante pode perceber que o mundo não é só a fantasia colorida que lhe vendem pela televisão.
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