1. Para começar, gostaria de lhe perguntar o seguinte: considera-se, antes de mais, uma filósofa ou uma professora?
Se eu vivesse numa cultura anglo-saxónica, não teria problema nenhum em responder-lhe e sem qualquer hesitação me consideraria filósofa, isto porque é habitual entre ingleses e americanos classificar de filósofo todo aquele que se dedica à filosofia e a entende como um dos pontos centrais da sua vida. O que é o meu caso. Acontece que na Europa o termo filósofo é reservado para aqueles (ou aquelas) que têm um pensamento original, que construíram algo de novo, que escreveram uma obra considerável, etc. etc. Neste caso, e porque me situo nesse contexto, sou mais modesta e direi que sou professora e investigadora de filosofia. Mas acho que todo o filósofo é por natureza pedagogo, mesmo que institucionalmente não ensine filosofia.
2. Quando e porque motivos decidiu ser professora de filosofia?
Ser professora de filosofia não foi uma escolha que tenha feito inicialmente, antes de ter começado a ensinar. Lembro-me que quando tirei o curso não me via de todo como professora, até porque não era uma profissão que me atraísse grandemente. As coisas vão acontecendo. Comecei por dar explicações, depois arranjei umas horas de português, francês e história num colégio particular e percebi que os miúdos gostavam de mim e que eu também gostava deles, que me divertia a ensinar. Foi então que decidi fazer o estágio. Costuma-se dizer muito mal dos estágios. Eu não partilho essa atitude crítica pois foi nessa altura que me dei conta que iria ser professora mas que isso não era uma fatalidade. Note-se que tive uma orientadora excelente e exigentíssima, a Dra Maria Emíla Cordeiro Ferreira, no Liceu Filipa de Lencastre, com sessenta aulas assistidas, etc. etc.
3. Quais as principais diferenças entre a filosofia da faculdade e a que se ensina no secundário?
Obviamente que o ensino na faculdade é mais exigente pois estamos perante alunos adultos, que gostam (ou deviam gostar) de filosofia e que esperam que os seus professores tenham algo de interessante e de original a partilhar com eles. Também é um ensino muito mais livre pois os próprios docentes são autores dos programas que leccionam. Depois obriga necessariamente a uma investigação constante, sob pena de nos transformarmos em meros repetidores. Raramente há problemas de disciplina, os estudantes, sobretudo os dos anos finais e dos mestrados, são mais interessados e têm uma relação mais dialogante com os professores. A competitividade é maior entre os universitários do que entre os alunos do secundário, sobretudo nos últimos tempos em que o quadro de professores de filosofia tem poucas vagas. Isso pode estragar um pouco as relações de inter-câmbio e de partilha que são desejáveis numa universidade.
4. Prefere ser professora universitária ou do secundário?
Gostei muito de ser professora no secundário e quando mudei para a Faculdade de Letras estranhei bastante o formalismo dos estudantes. É que estava habituada a dialogar com os alunos e a considerar que eles eram parte essencial na construção das aulas. O ensino universitário é mais expositivo, os alunos são cautelosos na participação, estão habituados a ouvir e só quando instados interrompem. Raramente dialogam entre si, como se tivessem medo de se comprometer, de mostrar abertamente aquilo que pensam. E acho que não é só por medo ao professor mas por medo de ficarem mal perante os colegas, de serem catalogados, sei lá! As nossas escolas ensinam pouco a falar, a expor, a debater opiniões, a trocar argumentos. Claro que há aulas em que o diálogo é difícil, sobretudo quando decorrem em anfiteatros, com muita gente. Acontece que o curso de filosofia é relativamente pequeno e com os alunos dos últimos anos e de mestrado (os que eu geralmente apanho) já é possível escapar a uma aula totalmente expositiva. De qualquer modo o ensino universitário oferece-nos muitas mais possibilidades de investigar e de progredir. Aliás somos obrigados a fazê-lo, com os concursos constantes a que somos submetidos. Isso por um lado é bom porque impede que nos instalemos mas por outro representa um esforço muito grande. Quem opta pelo ensino universitário já sabe que será avaliado toda a vida.
5. Acha que ainda existe discriminação em relação aos pontos de vista femininos?
Embora se tenham feito muitos progressos e ao nível da lei a mulher portuguesa esteja mais defendida do que estava há alguns anos, há muito que fazer. Sobretudo no que respeita às mentalidades. De facto, as mulheres têm teoricamente as portas abertas para ingressar nas carreiras que pretendem, com os mesmos direitos, etc. etc. Mas na prática continua a haver uma cisão grande entre público e privado. É sobretudo no domínio do privado, onde é mais difícil actuar, que a discriminação se verifica, quer por parte dos homens, quer por parte das próprias mulheres que interiorizam os estereótipos sexuais dominantes na sociedade e se culpabilizam quando não conseguem dar conta dos diferentes papeis que simultaneamente vivem. Continuam a faltar estruturas que facilitem a vida às mulheres, como por exemplo a possibilidade de, querendo, poderem dar mais atenção aos filhos pequenos sem que tal facto prejudique as suas carreiras, etc. etc. Por mais "libertação" que se propague teoricamente, a responsabilidade dos problemas quotidianos de uma família continua a recair sobre as mulheres que se sentem angustiadas quando os não resolvem. A discriminação manifesta-se em coisas tão triviais como a linguagem. É considerada feliz aquela mulher que diz do seu marido ou namorado ou parceiro que ele "ajuda muito". Mas o termo ajudar é significativo pois deixa claro que quem tem a responsabilidade é a mulher e o resto é uma "ajuda". É difícil para as mulheres conciliar uma carreira e uma vida familiar e continua a vingar a mentalidade que elas são umas "trabalhadoras de segunda classe". Note-se que isto para mim não significa que a mulher deva abdicar de certas tarefas mas sim que tem que haver o reconhecimento oficial do valor das mesmas. A economia de um país deve muito ao trabalho não remunerado das mulheres mas o reconhecimento dessa dívida está por fazer. Há uns vagos rebuçados que têm sido dados, como por exemplo mais um mês de licença de parto, ou a obrigação de o pai ficar em casa cinco dias depois do nascimento da criança. O que é irrisório.
6. Será que essa discriminação se verifica no campo científico e académico? Se sim, porque acha que tal ainda acontece?
No campo académico aparentemente não há discriminações e verificamos que as universidades estão cheias de mulheres. Acontece no entanto que a progressão nas carreiras é mais lenta para estas pois as provas que todos os docentes têm que prestar são muito exigentes e não se compadecem com outros compromissos, como é o caso de uma vida familiar. Os concursos vários a que a carreira académica obriga coincidem geralmente com a altura em que as pessoas que optaram por casar e constituir família têm uma vida mais ocupada - filhos pequenos, etc. É complicado uma mãe ir para o estrangeiro para preparar o doutoramento, ou deixar de atender aos filhos quando prepara um concurso. Houve quem se lembrasse de alargar prazos de entrega de teses em função do número de filhos pequenos, mas tal nunca se concretizou. Uma carreira académica é duplamente difícil para mulheres com família pela exigência de conciliação de interesses com a qual constantemente se defronta. No meu departamento há vinte professores e oito professoras. De entre estas, por coincidência ou não, só duas têm filhos. No que respeita propriamente aos "pontos de vista sobre o feminino" devo dizer que foi a Universidade, mais propriamente o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa que me deu a oportunidade de investigar sobre o tema da mulher numa perspectiva filosófica. Note-se que o projecto que coordeno - "Uma Filosofia no Feminino" - teve a adesão de muitos dos meus colegas que colaboraram nos colóquios e livros publicados. De qualquer maneira há sempre uma certa atitude de condescendência, certos sorrisos que embora simpáticos fazem sentir que os temas que trabalhamos são secundários relativamente ao panorama filosófico.
7. Dê-nos dois exemplos de filósofas famosas.
Houve muitas filósofas famosas, algumas delas dedicando-se especificamente à causa das mulheres e outras fazendo filosofia sem se preocuparam com filosofemas especificamente femininos. Aponto como exemplo das primeiras Mary Wollstonecraft, uma filósofa do século XVIII. Das segundas Hannah Arendt, no século XX. Wollstonecraft foi uma feminista libertária, verdadeiramente pioneira no trabalho filosófico sobre os direitos das mulheres. A sua obra diz essencialmente respeito à filosofia da educação pois pretendia reformar o modo como as mulheres eram ensinadas. Na sequência das conquistas da Revolução Francesa, procura a igualdade, liberdade e fraternidade para as mulheres pois verifica que apenas os homens beneficiaram destes ideais. A Vindication of the Rights of Woman é a sua obra mais conhecida. Infelizmente não há tradução dela na nossa língua. Uma nota curiosa é o facto de esta autora ter estado em Portugal e ter escrito sobre o nosso país. É verdade que o fez de modo pouco lisongeiro mas não é razão para a ignorarmos, deixando a sua obra por traduzir. Hannah Arendt é por demais conhecida e felizmente tem muitos livros editados entre nós. Trata-se de uma discípula da Heidegger que se emancipou da tutela do mestre e se tornou conhecida essencialmente pelos seus trabalhos de Ética e de Filosofia Política. Uma das suas obras mais divulgadas é O Sistema Totalitário. Nela analisa aquilo a que chama uma lógica da desrazão que admite fenómenos tão repugnantes para os conceitos éticos tradicionais como os que ocorreram no nazismo e no estalinismo. O acompanhamento que fez do julgamento de Eichmann, criminoso de guerra, fê-la constatar que este tinha mais de burocrata do que de perverso. O que a levou a desenvolver um conceito fundante no seu pensamento: o da banalidade do mal.
8. Porque será que as filósofas não são estudadas no secundário?
Não são estudadas no secundário tal como são pouco estudadas na Universidade. Se eu fosse uma feminista militante (que não sou) encontraria nessa ausência mais elementos para confirmar a tese da discriminação. Mas creio que esta não explica totalmente o fenómeno. Há outras razões, como por exemplo o desconhecimento das obras de filósofas que só recentemente começam a ser divulgadas, a inércia que leva as pessoas que têm cursos já preparados há anos a recusar repensá-los de novo. Também me parece que este esquecimento das filósofas tem muito a ver com uma certa rigidez quanto ao que se entende por filosofia. Senão vejamos: na modernidade há mulheres que escreveram cartas, interpelando filósofos e obrigando-os a repensar as suas teses, exigindo delas uma maior inteligibilidade, levando-os para orientações que primitivamente não tinham sido pensadas. Durante muito tempo o trabalho questionante e indagador dessas mulheres foi menosprezado, esquecendo-se que muitas vezes foram elas as responsáveis pelo aprofundamento de teses filosóficas essenciais. Cito como exemplo a Princesa Elisabeth da Boémia relativamente a Descartes e Lady Masham quanto a Leibniz.
9. Acha que o ensino da filosofia no secundário é realmente necessário?
Numa época em que a informação é muita e a triagem da mesma é difícil acho cada vez mais necessária a filosofia no secundário. Só que não há necessidade de fazer desta iniciação uma espécie de mini-licenciatura. Entendo que o ensino no secundário devia ser muito mais flexível, mais atraente, mais adequado aos alunos para os ajudar a ter um pensamento crítico. Não me parece que isso possa ser feito com a leitura de textos incompeensíveis para a maioria e com a apresentação de temas com os quais não se sentem minimamente identificados. Note-se que não defendo um ensino da filosofia facilitista nem pretendo que nas aulas se leiam textos de jornal ou se contem histórias. A minha crítica vai para a desadequação dos programas ao nível etário dos alunos, o que se nota sobretudo no excesso de informação exigida e na dificuldade em conseguir uma atitude crítica e problematizante quando se tem que "dar" tanta matéria. O próprio termo "dar" matéria é profundamente anti-filosófico.
10. Acha que o ensino da filosofia no secundário é bom?
Acho que há certamente maus professores, instalados, preguiçosos, ignorantes. Mas na experiência que tenho tido com estagiários verifico que a grande maioria faz realmente coisas extraordinárias. Digo isto muito sinceramente pois não só tenho assistido a aulas excelentes como tenho analisado material pedagógico muito criativo e motivador. Penso que deveria haver uma espécie de banco desse material, nomeadamente de planificações, textos, argumentos, questões, imagens com a respectiva exploração das mesmas, etc. etc. Faz-me pena que um esforço tão grande não possa ser mais divulgado. Às vezes penso se esses jovens professores com os quais tanto tenho aprendido se terão modificado e se tornaram nos tais maus professores, instalados e preguiçosos. Como me é difícil admitir que as pessoas se modifiquem de um modo absoluto, a minha resposta à vossa questão é optimista. O que me leva a considerar que há muita gente que continua a achar que é possível ser-se filósofo(a) e simultaneamente professor ou professora de filosofia. E esses são certamente bons professores.
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