"Para estudar ética com seriedade, é preciso distanciarmo-nos das nossas opiniões e conseguirmos avaliar as vantagens e desvantagens de cada posição. Temos de conseguir ter suficiente capacidade crítica para admitirmos que talvez estejamos errados sobre algo em que acreditamos profundamente."
Qual a importância do estudo da ética na discussão filosófica actual?
A ética é, talvez, juntamente com a filosofia da mente, a disciplina filosófica mais popular neste momento (nos países de língua inglesa, pelo menos).
Nas primeiras décadas do século XX, a ética e a metafísica foram relegadas para segundo plano, em parte devido ao positivismo lógico. De acordo com o positivismo lógico, só afirmações empiricamente verificáveis tinham significado; as afirmações éticas e metafísicas não eram empiricamente verificáveis; logo, as afirmações éticas e metafísicas não tinham significado - diziam os positivistas lógicos.
Dada a influência do positivismo lógico, durante muitos anos a posição dominante sobre a ética foi o emotivismo, de acordo com o qual, quando dizemos "Bater nos outros é errado", não estamos a expressar uma crença, mas sim a expressar uma emoção: "Eu não gosto que se bata nos outros". Esta posição tornou a ética terreno seguro para os positivistas lógicos, mas também a tornou profundamente desinteressante - e contra-intuitiva. Se o emotivismo estivesse certo, seria impossível haver verdadeiro desacordo moral. De acordo com o emotivismo, quando uma pessoa diz " Bater nos outros é errado" e outra diz "Bater nos outros não é errado", não há desacordo, porque uma está a dizer que gosta que se bata nos outros, e a outra está a dizer que não gosta que se bata nos outros. Há tanto desacordo aí como quando uma pessoa diz que é do Benfica, e outra diz que é do Sporting.
O positivismo lógico foi caindo em descrédito, e hoje já quase ninguém se afirma positivista lógico. Em parte, porque parece ser auto-refutante: não parece que a afirmação "Só afirmações empiricamente verificáveis têm significado" seja empiricamente verificável.
A queda do positivismo lógico acompanhou - e, em parte, causou - a queda do emotivismo, o que veio reavivar novamente o interesse na ética. Embora ainda hoje sobrevivam versões sofisticadas de emotivismo, não é já possível relegar a ética para o saco do lixo da filosofia. A ética está bem e recomenda-se!
E, no contexto dessa discussão, como enquadra o tema desta sua Conferência?
Gostaria de dar um breve resumo da ideia principal da conferência. Na conferência, falei acerca do utilitarismo de Mill, que é uma versão de consequencialismo, e do deontologismo de Kant, que é uma versão de não-consequencialismo.
As teorias consequencialistas são compostas por duas partes: uma teoria do bom, e uma teoria do correcto. A teoria do bom trata de determinar que estados de coisas são bons, fornecendo também, geralmente, critérios para os comparar - critérios que determinam qual o melhor estado de coisas entre vários. A teoria do correcto trata de determinar o que devemos fazer.
De acordo com as teorias consequencialistas, o correcto consiste em maximizar o bom, ou seja, consiste em gerar o melhor estado de coisas possível, se esse estado de coisas ainda não existe, ou em preservá-lo, se já existe.
Uma teoria não-consequencialista típica, por outro lado, começa por especificar uma teoria do bom, mas nega, de seguida, que o correcto consista sempre em maximizar o bom. Por exemplo: é preferível que morra apenas uma pessoa a que morram cinco, mas uma teoria não consequencialista como a de Kant não permite que matemos uma pessoa para salvar cinco. Uma teoria consequencialista diria que temos o dever de matar essa pessoa caso assim possamos salvar cinco.
Já expliquei a diferença entre consequencialismo e não-consequencialismo; agora gostaria de dizer como estão as coisas em termos do debate contemporâneo. Os anos 60 e 70 foram dominados pelas devastadoras críticas de Bernard Williams tanto ao utilitarismo como ao kantianismo, e os anos 80 viram surgir algumas tentativas de elaborar versões híbridas de teorias normativas, que combinam alguns elementos do consequencialismo e alguns elementos do não-consequencialismo. Nos anos 90, embora não se possa dizer que o debate contemporâneo sobre a disputa entre consequencialistas e não-consequencialistas tenha estagnado, é verdade que esfriou um pouco.
Hoje em dia, o que "está a dar" em ética são as emoções. Estudam-se problemas como: O que são emoções? Que emoções deve uma boa pessoa ter? Será que ser uma boa pessoa nada é senão ter certas emoções, como compaixão, misericórdia e amor?
Em parte devido à atenção conferida às emoções na ética contemporânea, houve também um reavivar de interesse na chamada ética das virtudes, cujo maior defensor foi Aristóteles, que defende que ser uma boa pessoa nada é senão ter certas virtudes, como a caridade e a benevolência.
Tendo em conta os problemas com que a sociedade actual se confronta e a forma como têm sido encarados, diria que a sociedade actual é consequencialista ou não consequencialista?
Acho que é impossível de dizer. Tomemos a presente administração Americana, por exemplo. Com o seu respeito tradicional pelos direitos individuais, poderíamos pensar que é não-consequencialista. No entanto, as suas políticas em relação ao Iraque parecem consequencialistas: se é melhor um estado ser democrático do que ditatorial, então temos o dever de derrubar esse estado ditatorial e implantar um democrático, ainda que isso signifique que alguns inocentes tenham de morrer.
Dito isto, também não me parece útil dizer que as políticas Americanas são não-consequencialistas, no que diz respeito a assuntos domésticos, e consequencialistas, no que diz respeito ao quintal dos outros. Acho que, pura e simplesmente, não são nem consequencialistas, nem não-consequencialistas: são uma mistura inconsistente das duas teorias.
(O que não quer dizer que ache que todas as misturas das duas teorias sejam inconsistentes, claro; como disse acima, foram feitas algumas tentativas interessantes nos anos 80 para as combinar.)
Dei o exemplo da América, bem entendido, como poderia ter dado qualquer outro: nenhum governo é conscientemente consequencialista ou não-consequencialista, pelo que em todos os governos há uma mistura inconsistente de políticas de um tipo e de outro.
Concorda com a ideia, defendida por alguns, de que precisamos de uma nova ordem ética, ou acha que é um falso problema?
Acho que mais importante do que adoptar esta ou aquela teoria ética, seria fundamental fomentar uma discussão pública imparcial e séria das questões morais do dia. Que é o que ainda não existe em Portugal.
Tirou o curso de filosofia no King's College, em Londres. O que o levou a fazer essa escolha?
Foi puro acaso. A meio do meu 12ª ano, estava a fazer uma pesquisa no Google, e fui ter à página da Argumentos, uma lista de discussão que estava na altura ligada à Crítica (ver www.criticanarede.com), e que era moderada pelo Desidério Murcho. Mandei para a lista uma mensagem a apresentar-me, a dizer que queria tirar o curso de filosofia, e que tinha uma objecção a algo que lera no livro Ética Prática, de Peter Singer. O Desidério Murcho gostou da objecção e perguntou-me se eu alguma vez tinha considerado a hipótese de ir estudar em Inglaterra, porque o tipo de filosofia de que eu gostava não se fazia em Portugal. Achei boa ideia - quer porque ia fazer uma coisa de que gostava mesmo, quer porque ia ter a oportunidade de sair de casa aos dezoito anos. Candidatei-me, aceitaram-me, e parti à aventura!
Da sua experiência de estudante de filosofia, que comparação faz entre o ensino de Filosofia em Inglaterra e em Portugal?
É-me difícil comparar, dado que o meu único contacto com a filosofia em Portugal foi no secundário. Mas a impressão superficial com que fiquei, por falar com várias pessoas que tiraram o curso cá, é que em Portugal há demasiada reverência pelos filósofos mais conhecidos: Platão, Kant e Sartre, por exemplo. Quando em Portugal digo que não concordo com algo que esses grandes filósofos dizem, recebo frequentemente um sorriso condescendente, como que a dizer: "olha este a armar-se, julga que é muito esperto". Não se trata disso: durante a licenciatura, eu e os meus colegas fomos incentivados a formar opiniões fundamentadas sobre aquilo que os grandes filósofos do passado dizem. Todas as semanas tínhamos de escrever um curto ensaio em que fazíamos o resumo das posições de um ou dois filósofos, tomávamos posição, e explicávamos as nossas razões - éramos descontados em termos de nota caso não tomássemos posição e expuséssemos as nossas razões. Os professores tomavam isso como sinal de preguiça ou falta de maturidade intelectual.
É óbvio que não nos pediam que inventássemos argumentos completamente originais para responder ao problema: isso não seria realista. Só nos pediam que lêssemos duas ou três coisas, pensássemos sobre aquilo pela nossa própria cabeça, e tentássemos fundamentar as nossas posições.
É importante frisar que a diferença não reside tanto nos filósofos que são estudados em Portugal e nos que são estudados na Inglaterra - a diferença reside no modo como são estudados. Em Inglaterra, tem-se a ideia de que há um conjunto de problemas filosóficos interessantes sobre os quais todos os grandes filósofos do passado escreveram, e o que é preciso é comparar as suas respostas e ver quem tem razão. Em Portugal, dá-me a impressão de que se trata cada filósofo como se fosse um mundo à parte dos outros filósofos. É como se nenhum grande filósofo estivesse certo ou errado: o que eles dizem faz sentido, sim - mas apenas dentro do sistema deles. E é considerado errado pegar nos diferentes sistemas e compará-los. Não sei bem por que pensam isso. O que me dá gozo na filosofia é pegar em posições opostas e ver quem tem razão. Se não me deixassem fazer isso, acho que deixaria de fazer filosofia.
Quais são os seus principais interesses filosóficos neste momento e porquê?
Talvez a ética e a metafísica sejam as disciplinas filosóficas de que mais gosto neste momento. Gosto da ética porque estou interessado em pensar sobre assuntos como o aborto e eutanásia. Da metafísica, comecei a gostar quando me apercebi do papel central que tem na filosofia - afinal, todas as áreas filosóficas estão divididas em duas partes: metafísica e epistemologia (isto é, filosofia do conhecimento). A ética divide-se em duas partes: metafísica da ética e epistemologia da ética; a filosofia da ciência, em metafísica da ciência e epistemologia da ciência; e por aí adiante. O que faz sentido, se pensarmos nisso. As duas questões filosóficas mais fundamentais talvez sejam: O que existe? e Como podemos saber que isso existe?
Acho que me inclinei mais para a metafísica do que para epistemologia devido a interesse por algumas questões em particular, como o problema dos universais e a natureza da acção humana.
Recentemente, também comecei a interessar-me por filosofia medieval. Fui a umas aulas sobre isso e apercebi-me de que havia ali um continente inteiro por explorar. A Idade Média não foi uma era das trevas, em termos intelectuais, como é comum dizer-se; pelo contrário, foi uma altura em que a discussão filosófica atingiu um profissionalismo até aí nunca alcançado, em que os filósofos estudavam cuidadosamente os clássicos e discutiam activamente o trabalho uns dos outros.
Que conselhos daria a um estudante que lhe fizesse a seguinte pergunta: "Como estudar ética?"
A metafísica estuda problemas abstractos como a natureza do tempo, da causalidade e dos universais; estes são problemas sobre os quais a maior parte de nós provavelmente não tem qualquer opinião forte, ou sobre os quais se calhar nunca pensou. A ética, pelo contrário, põe verdadeiramente em causa as nossas opiniões mais arreigadas sobre assuntos tão controversos como o aborto e eutanásia. Para estudar ética com seriedade, é preciso distanciarmo-nos das nossas opiniões e conseguirmos avaliar as vantagens e desvantagens de cada posição. Temos de conseguir ter suficiente capacidade crítica para admitirmos que talvez estejamos errados sobre algo em que acreditamos profundamente.
Há uma citação, cujo autor não me lembro, que resume bem o que quero dizer: "Se não percebeste por que razão uma posição poderia ser considerada apelativa, então ainda não percebeste verdadeiramente essa posição."
Isso é verdade para todas as disciplinas filosóficas, mas é-o em particular para a ética, onde a tentação de ignorar ou ridicularizar quem não concorda connosco é maior.
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